
Por que não dá para fazer um projeto de Design por R$100?
Você já fez essa pergunta para si mesmo? Alguém já perguntou por que você cobra “caro” para fazer determinado trabalho?
Vamos à um exemplo prático: Criação de logotipo.
O cliente te contrata para fazer o desenho de um logotipo, você avalia o briefing, orça, o cliente aprova e vamos ao trabalho!
Primeiramente começamos fazer uma pesquisa no campo de atuação do cliente. Essa pesquisa pode ser feita de “n” maneiras, mas vou exemplificar aqui a grosso modo quais são os passos mais comuns de um trabalho como este.
Então iniciamos pela pesquisa que pode começar fazendo uma visita ao cliente, o conhecendo, a empresa, seus funcionários, forma de trabalho, de produção de seu produto, de sua filosofia, sua história, etc. Nesta pequena visita você vai dispor de seu tempo, seu conhecimento, sua gasolina, o pedágio e o seguro do seu laptop (caso o tenha). Isso tem um CUSTO. Em um dia essa “bobeirinha” pode lhe custar R$50, R$200, R$300 ou R$2.465,00 se você bater o carro ou roubarem o seu Laptop.
Ainda tem dúvidas que um desenho de um simples logotipo pode sim custar R$100? Então continuamos…
Depois da visita ao seu cliente a pesquisa continua. Você vai até o shopping, supermercado ou local onde o cliente de seu cliente consome a marca (lembre-se: seu cliente NÃO É o público final), e então vai observar o seu comportamento, seus hábitos perante o produto.
Contabilize aí: gasolina + estacionamento, ok?
Ah legal, a pesquisa então acabou?
Não, mas não mesmo!
Você vai chegar em seu escritório, vai ligar o seu computador e fazer uma incansável pesquisa por símbolos, nomes, imagens, textos e tudo o que possa lhe ajudar no suporte de tudo aquilo que já pesquisou. Essa pesquisa pode durar horas, dias.
Some aí a internet que você paga, seu aluguel, seu café e tudo o que vai manter você aceso para continuar pesquisando.
Depois da pesquisa, se comunique com o cliente enviando e-mails, ligando e falando sobre a sua pesquisa, quais foram suas impressões e resolva suas possíveis dúvidas.
Sim, você também vai pagar esses minutos no telefone, não? Isso também custa.
Depois de um bom papo e dúvidas resolvidas você já pode começar a tão sonhada parte da criação.
A criação não é composta apenas de internet e photoshop. Ela passa por um longo processo de absorvimento da pesquisa já concebida. Ela envolve mais pesquisa em livros e revistas (isso também é custo, vc os compra todo mês!) de referência que você deve ter, passa por leituras que servirão de base conceitual e argumentativa, sem contar a sua formação e experiência que também o ajudarão indiretamente nessa hora e que também possuem um custo indireto, afinal você investiu 4 anos ou mais de sua vida estudando para fazer um projeto decente.
Aí vem o famoso brainstorm, onde você vai “vomitar” ideias sem se preocupar com a qualidade conceitual ou gráfica. É hora de soltar o traço em seu sketchbook, em folhas de papel ou da maneira que você achar que o exercício o ajude na criação. Você pode usar massinha, canetinhas coloridas, tesoura, cola, arames… enfim. Sem limites nessa hora.
Bom lembrar que, se você tem um conjunto de materiais que servem de insumo para suas criações, você o comprou e vai precisar repor quando estiver acabando né? Pois é, isso custa.
Depois do brain e de dezenas de folhas gastas com seus sketches, você começa iniciar um processo do reconhecimento de uma forma que pode vir a ser o novo logo do seu cliente. Trabalhe na ideia e em suas variantes de maneira incansável. Não se contente com a primeira, segunda ou vigésima ideia. Esgote a sua cachola, relaxe e depois volte ao trabalho com a cabeça mais fresca.
[Relaxe = pare um pouco, tome café, faça um esporte, assista um filme, durma.]
Este processo pode durar dias e dias. A criação de um logo que vai ficar lá na fachada da loja do seu cliente e que vai ficar na fachada do seu portfólio não vai sair de uma hora para outra.
Esses dias e dias vão lhe custar as suas horas que, embutido nelas estão a internet, o aluguel e todo o resto que eu já falei aqui.
Depois que você já rabiscou bastante, agora é a hora mais rápida, a hora de desenhar no Illustrator/Photoshop, né? Não, não é.
Agora você ainda vai definir uma palheta de cores, desenhar o símbolo e escollher a tipografia. Uma boa tipografia também pode levar dias para você achar. O tipo é um ítem tão (ou mais) importante que o símbolo. Não a ignore. Isso quando você não desenha a tipografia especialmente para o logo ou o faz em AllType – Logotipo usando apenas tipografia. Mas trabalhar com tipografia é tão complexo que vale um texto a parte só para projeto tipográfico.
Feito os primeiros desenhos, você vai marcar uma outra reunião com o cliente (isso vai lhe custar novamente!) ou, dependendo do caso você manda por e-mail para ele analisar e aprovar ou não.
Cliente diz: “hummmm, não gostei”. Você já ouviu isso?
Existem muitos designers que nessa hora desanimam, fazem cara feia, dão contra argumentos só para acabar o projeto (agora você descobriu que cobrou pouco), enfim. O cliente está feliz pela sua promessa, pelo seu atendimento e muito mais pelo preço que ele vai pagar, e ele não tem culpa que você cobrou muito pouco. Ou você sustenta até o final ou perderá o cliente pelo seu erro de cálculo.
A não aprovação de uma, duas, três ou mais vezes pode acontecer. Faz parte.
(Você pode fazer um contrato para ambos assinarem antes de iniciar o trabalho, tentando se proteger de dezenas de refações, por exemplo. Tudo pode ser combinado por escrito e assinado).
Bom, se não foi aprovado, hora de voltar para as pesquisas, analisar as considerações do cliente, rafear muito, finalizar, fazer testes de impressão no seu escritório ou na gráfica… E tudo isso vai lhe custar mais tempo, mais materiais de escritório, tinta da impressora, transporte para a gráfica, gasto com impressão ou motoboy para buscar a impressão pra você caso não tenha tempo de ir até a gráfica.
Contente com o resultado? Ligue para o cliente e marque outra visita. (contabilize os custos!)
Ebaaaaa! Aprovado!!!
Hora de voltar para o escritório, finalizar a arte, gravar um CD e fazer a entrega pessoalmente, claro. (Contabilize aí mais uma visita)
Esses exemplos que citei fazem parte de experiências que já tive. Cada caso é um caso, mas de fato cobrar uma merreca por um projeto de design é inviável.
Muitas vezes o próprio possível cliente não reconhece o seu preço, seu conhecimento acadêmico, sua experiência e competência profissinal, se apegando apenas nos números que passou para ele, achando que “desenhar” um símbolo é fácil, rápido e custa pouco. Este tipo de cliente talvez não sirva para você.
Baixando muito o seu preço vai afetar o seu lucro e até o seu custo básico. Você pode até ganhar o cliente cobrando 100 e dar risada dos amigos que cobram 1000, mas não vai conseguir manter o mesmo padrão de qualidade nos próximos projetos, muito menos apresentar um orçamento com 1000% de aumento no próximo logo pra ele, o que tornará o seu negócio insustentável com o tempo.
Valor é um negócio complicado e depende da forma que cada um estipula seu preço. Você pode ser freelancer, ser dono de uma micro empresa ou “sobrinho”. Ser estudante, profissional ou empresário, mas todos tem seu custo/hora.
Se quiser fazer que seu cliente o respeite e o leve a sério, você também tem que se levar a sério, né?
E você, concorda, não concorda ou tem alguma experiência para dividir? Comenta aí!





#1 por Ricardo at November 4th, 2011
Muitos clientes já não exigem sua visita física à sua empresa. E mesmo que você não precise de tanta pesquisa – afinal, às vezes desenvolvemos marcas de segmentos que conhecemos muito bem, a maior máxima é “quanto vale seu conhecimento”?
Alguns advogados cobram fortunas simplesmente para lhe receber em seu escritório, por saberem ser capazes de resolver seu problema. O mesmo quanto a qualquer profissão: se vc é capaz, se vc tem o conhecimento, isso tem um preço.
#2 por Marco Moreira at November 4th, 2011
Verdade, Ricardo!
Sei que o preço do serviço não está baseado apenas nos custos de locomoção e materiais. Talvez faltou eu ser um pouco mais claro nesta parte, mas concordo plenamente contigo!
O intuito do post foi provocar o questinamento no que diz respeito a pessoas que cobram muito barato (o que acaba tornando o projeto insustentável) ou o cliente que acha que isso é barato e que não dá trabalho algum para fazer.
Obrigado pela visita, pelo comentário!
#3 por Jak at November 4th, 2011
Excelente post, Marquinho! O cara que cobra tão pouco pelo próprio trabalho é porque não dá valor ao próprio talento (se é que acredita na existência dele), né não?
Beijo!
#4 por Marco Moreira at November 4th, 2011
Exatamente Jak!
Das duas, uma: Ou ele não acredita no próprio talento ou existe alguém que o sustenta hehe!
Porque gosto pelo design, todos temos, mas a realidade é que também precisamos de algo para pagar as contas no fim do mês (e investir mais em nós mesmos)
Beijos!
#5 por alex at November 4th, 2011
muito bom o post \o/
é isso que acontece na maioria das vezes.
mas como profissionais temos que abrir a mente das pessoas, não somos um simples desenhista de marca, somos profissionais de design.
#6 por J. at November 7th, 2011
O Brasil ainda peca pela não cultura à certas áreas de trabalho. Vender design não é fácil, o cliente paga por um produto que não está pronto, por isso custa caro e ainda sim deveria custar mais por não ter uma “matéria-prima” disponível…
Parabéns pela matéria,
“Pensar é difícil e trabalhoso, talvez seja por isso que poucos a façam” – Henry Ford
#7 por renato dop at December 6th, 2011
Muito bom o post! Falando da tipografia, ainda tem o custo das fontes. Embora no Brasil não seja uma prática comum, as fontes são compradas e podem custar caro, principalmente levando em consideração um orçamento de R$ 100,00.
#8 por Leandro Oliveira at December 6th, 2011
É a mais pura verdade. Tem uma galera que se vende por ninharia. Se queima, queima o mercado e reclama que as pessoas acham que nossa profissão é ingrata. Obrigado pelo texto. Vou divulgar no face.
#9 por Fabio at December 24th, 2011
É bem por aí. “Criar um logo” é um título de trabalho, assim como “Ler um livro” ou “Construir um prédio”. Esses títulos não explicam fielmente a soma de todas as ações e conhecimento necessários para se chegar ao título desejado.
Para ler um livro é preciso compra-lo, pra isso precisa de ir na loja, saber escolher e ter dinheiro, mas antes disso é preciso saber ler, e para isso precisa aprender a ler… e tudo isso leva tempo. Sem contar o tempo de leitura e entendimento do livro.
Construir um prédio então nem se fala, esquecemos de considerar seguro, planejamento, pesquisa, local de construção, formação dos engenheiros e arquitetos, marketing, vendas, garantia… só consideramos tijolos e salário da piãozada.
Eu estou fazendo pintura como hobby, gasto horas limpando, lixando, empapelando e preparando as tintas, gasto apenas uns 30 segundos pintando, mais 1 hora de preparação para outra cor, 30 segundos de spray e mais algumas horas pra limpar e guardar tudo. Se eu fosse cobrar, eu não cobraria 60 segundos de trabalho de pintura né?
#10 por Marco Moreira at December 24th, 2011
Muito bem observado, Fanuk! A analogia do “Construir um prédio” é muito boa para explicar isso.
Uso também a analogia da Arquitetura convencional para explicar a Arquitetura de Informação. Valeu e feliz Natal!! =)